Era madrugada fria e úmida, um vulto apressado percorria a longa avenida. Carregava um embrulho, uma trouxa de roupas, talvez. Olhava para as casas, demorava-se em pensamentos. Por fim, depois de analisar um bom tempo a casa de belos jardins, arrumou o embrulho num cantinho. O dia amanheceu sem que ninguém percebesse o embrulho ali, largado à própria sorte.
Na verdade, a casa está vazia. Viajam os donos há longo tempo. Apenas uma empregada freqüenta o lugar. Ao chegar para trabalhar, ela se depara com o embrulho e, inicialmente, pensa ser lixo. Mas, ao chegar mais perto, ouve um choro de criança. Apressa-se, então a desfazer o embrulho, desvendar o mistério do choro: é uma linda menina. Morena de cabelinhos pretos espalhados pela cabeça pequena. Em meio aos panos que a protegiam, l nada ale de uma certidão de nascimento, onde se vê o nome da pequena. Talita.
Talita cresceu como filha da empregada, porém tinha quase tudo que almejava. A empregada era uma senhora chamada Graça que há muito perdera o marido. Talita sempre perguntava como era o seu pai e o que tinha acontecido e sua mãe rapidamente desconversava afirmando que seu pai fora um homem muito bom e que havia morrido honestamente.
O tempo se passou e Talita foi crescendo, até que a família começou a passar por um momento de demasiada dor. O filho mais velho de Graça morrera e Talita, que via a figura do pai nele, sofreu muito e Graça mais ainda, pois agora só lhe restara uma filha. Depois de todo esse sofrimento, Talita começou a se responsabilizar por tudo que acontecia em sua casa, pois sua mãe, já não tão jovem, não tinha condições de fazer as coisas. Passou-se um tempo e a mãe de Talita morreu, pois não conseguiu superar a dor e o sofrimento de perder seu filho.. Talita ficou sozinha novamente. Sem parente algum, ela precisou resolver a questão do enterro de sua mãe e se viu obrigada a procurar uma série de documentos. Era preciso remexer numa papelada velha, antiga, que sua mãe escondia como se fosse um verdadeiro tesouro. Foi necessário um dia inteiro para achar a caixa proibida. Na verdade, não era proibida... mas toda vez que Talita havia se aproximado da caixa, Graça sempre reagia com uma fúria inesperada. Certa vez, chegou a arrancar a caixa das mãos da filha, que nunca conseguia entender tais reações. Então a caixa ficou sendo “proibida” para Talita. Agora, a caixa estava em suas mãos e sua mãe não estava por perto para se zangar. Era estranho saber que Graça não gritaria para ela largar a caixa... que não haveria ninguém reclamando por ela estar segurando a caixa e prestes a revirar-lhe toda a papelada. Sentou-se sobre o colchão macio da cama da mãe e acariciou a tampa. Não sabia exatamente o porquê... mas seu coração batia descompassado e suas mãos tremiam. Sentia-se uma criança planejando uma grande travessura. Por fim, levantou a tampa lentamente. E pode ver fitas de cetim amareladas... flores ressecadas num saquinho... fotos... muitas fotos... e papéis ... de todo tipo e tamanho. Ficou pensativa e chorou de saudade... por que sua mãe havia guardado aquela flor murcha num saquinho transparente? Nunca saberia... Depois do choro, concentrou-se em sua missão. Havia uma lista de documentos necessários para as providências burocráticas e só ela poderia dar conta disso. Eram papéis de toda uma vida... Um em especial chamou sua atenção. Estava cuidadosamente dobrado, dentro de um envelope de papel duro; a aba encaixada por dentro fechando bem. Desdobrou o papel e viu... viu sem entender... uma certidão de nascimento... que tinha o registro de seu nascimento – estava lá o nome Talita... mas o nome da mãe... não era Graça... não havia nome do pai... Um turbilhão de sentimentos afogou Talita em lágrimas... não conseguia entender o que estava acontecendo. Por que, afinal, ela teria duas certidões de nascimento? Por que aquele documento? A verdade estava ali, óbvia à sua frente, mas Talita demorou a perceber... Graça sempre escondera a verdadeira história da menina... agora, o destino havia se encarregado de juntar os pedaços deste quebra-cabeça.
terça-feira, 30 de outubro de 2007
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